Nasci no dia 29 de setembro de 1993, e eu me espanto agora quando verifico que o ano do meu nascimento começa com mil e novecentos, mas não posso negar o fato de que, em alguns dias, estarei completando 32 anos. Nasci no meio católico, fui batizada, crismada, coroinha, catequista, fazia parte da liturgia e nunca me encaixava em um padrão propriamente dito da religião em questão. Eu lembro que, quando eu não frequentava as missas, minha tia me questionava. Então eu comecei a frequentar com as duas e, para ser sincera, eu gostava mais de ir à missa aos domingos, não por estar na igreja, e sim porque, sempre que acabava, íamos eu, minha tia e minha avó até o mercado comer pão de queijo e tomar café. Era o nosso ritual sagrado.

Quando entrou a pandemia e todo mundo ficou isolado em casa, foi bem na época em que minha tia começou a adoecer. Então, quando tudo voltou razoavelmente à normalidade, eu não tive mais interesse em ir. Lembro que eu sempre me sentia cansada por achar a missa muito longa. Comparada ao que estou vivendo atualmente, uma hora de missa não chega nem aos pés de quatro horas em pé dentro de um terreiro, mas, incrivelmente, eu ficava esgotada. Era como um monte de quebra-cabeças e eu estava ali, tentando me encaixar.

Fiz parte da Pastoral São Vicente de Paulo, um grupo de pessoas que se reuniam todas as terças, e eu era responsável pela ata, mas mesmo assim não me sentia pertencente. Se eu rever todo meu passado, hoje compreendo que nunca estive sozinha de fato. Com 13 anos, tentei suicídio, e eu me recordo de ver um vulto na beirada da cama que não me deixou, e eu senti arrependimento na hora. Lembro até hoje de colocar os comprimidos na boca e daquele vulto de homem.

Por que estou falando isso? Porque eu me encontrei numa religião que muitos julgam: a Umbanda. Aos 22 anos, tentei me infiltrar no meio espírita kardecista. Confesso que me sentia bem com o passe, mas ainda não era o que eu procurava. Até que, em agosto de 2023, quando teve uma festa no parque da cidade em homenagem ao Orixá Oxóssi, tudo mudou. Eu me senti muito mal, com os pés no gramado, sentindo aquela sensação de liberdade, mas, ao mesmo tempo, algo gritava dentro de mim e julgo que era meu caboclo. Mesmo atualmente, nas giras, não consigo incorpora-lo, mas naquele momento eu sabia que estava no lugar certo.

Se as pessoas tirassem suas máscaras de julgamento e apreciassem uma gira de Preto Velho, entenderiam do que estou falando. É ali, sua ancestralidade mais pura e singela, dizendo: “Sou eu… eu finalmente posso me revelar, eu finalmente posso incorporar, porque você acredita em mim.” E isso é tão significativo. Me descobrir como umbandista foi uma quebra de paradigmas. Logo eu, que jurei para mim mesma uma vez que nunca abandonaria a Igreja Católica e, como minha tia era devota de Nossa Senhora Aparecida, fiz uma tatuagem em homenagem a ela.

Sinto que minha história foi traçada, na verdade, com tudo que aprendi durante esse pouco tempo em um terreiro que, apesar de tudo, considero minha casa. Nosso destino sempre esteve traçado, e foi agora que eu precisava me descobrir e estar em um lugar onde me sentia verdadeiramente bem. Toda a ansiedade passa quando o toque do atabaque começa, quando o ponto cantado é irradiado, e eu sinto algo forte, algo que me deixa fora de ar por alguns segundos. Todo aquele pensamento acelerado, aquela vontade de sumir… puft… some, porque eles estão comigo, eles sempre estiveram. Nos momentos ruins, bons, nos momentos de desespero.

Como filha de Obá e Ogum, agora sei que sou uma guerreira. Nunca é tarde demais para aceitar e progredir, e como eu digo, isso é só o começo.

“Quem falou que eu ando só? Nessa terra, nesse chão de meu Deus. Sou uma, mas não sou só, povoada. Quem falou que eu ando só? Tenho em mim mais de muitos. Sou uma, mas não sou só.”

— Sued Nunes


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