Escrevo este texto em meio a uma crise de autismo.Na nossa sociedade, as pessoas parecem ter perdido a paciência umas com as outras. E isso se intensifica ainda mais quando nos deparamos com alguém em meio a uma crise sensorial. Tentarei descrever como é essa sensação. Após um conflito interno, parece que meu cérebro trava. Eu fico presa naquele problema que preciso resolver e, como uma cascata de cartas desmoronando, tudo começa a se intensificar. Um simples barulho, como um copo caindo no chão e fazendo aquele som metálico, se potencializa. O som cresce dentro de mim, causando inquietação e, logo em seguida, um susto acompanhado de um grito profundo. Os pensamentos aceleram. Tento absorver todas as informações que estão acontecendo ao meu redor ao mesmo tempo. A respiração acelera, o corpo começa a tremer, e a ansiedade, que antes estava adormecida, passa a percorrer cada vaso sanguíneo do corpo. Logo vem a dor no peito. Forte. Apertada. Sufocante. Como se um infarto fosse acont...
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Escrevo com o coração apertado, misturando revolta, indignação e uma tristeza difícil de explicar. Hoje vi a notícia de que um psicólogo negro tirou a própria vida após sofrer racismo no Carnaval. Um psicólogo negro. Um homem que dedicou sua vida a cuidar da saúde mental de outras pessoas não suportou o peso de uma sociedade que insiste em desumanizar corpos negros. É devastador pensar que, mais de um século após a abolição da escravidão no Brasil, o racismo continue sendo uma força tão cruel e destrutiva. Como se a cor da pele ainda definisse valor, dignidade, humanidade. Como se o sangue, os órgãos, a alma de uma pessoa negra valessem menos. Como disse Elza Soares: “A carne mais barata do mercado é a preta.” Essa frase nunca deixou de ser atual. Essa dor não é distante para mim. Cresci me sentindo privilegiada por ter sido criada com amor pela minha tia e minha avó. E fui, dentro do que era possível. Mas também senti, desde pequena, a indiferença no olhar do meu avô materno. Nun...