Escrevo com o coração apertado, misturando revolta, indignação e uma tristeza difícil de explicar. Hoje vi a notícia de que um psicólogo negro tirou a própria vida após sofrer racismo no Carnaval. Um psicólogo negro. Um homem que dedicou sua vida a cuidar da saúde mental de outras pessoas não suportou o peso de uma sociedade que insiste em desumanizar corpos negros. É devastador pensar que, mais de um século após a abolição da escravidão no Brasil, o racismo continue sendo uma força tão cruel e destrutiva. Como se a cor da pele ainda definisse valor, dignidade, humanidade. Como se o sangue, os órgãos, a alma de uma pessoa negra valessem menos. Como disse Elza Soares: “A carne mais barata do mercado é a preta.” Essa frase nunca deixou de ser atual. Essa dor não é distante para mim. Cresci me sentindo privilegiada por ter sido criada com amor pela minha tia e minha avó. E fui, dentro do que era possível. Mas também senti, desde pequena, a indiferença no olhar do meu avô materno. Nunca recebi um parabéns, nunca recebi um presente de aniversário, enquanto outra neta recebia tudo. Eu não entendia. Depois compreendi: meu pai é um homem negro, e ele sofria racismo por parte do meu avô. Como filha dele, eu também carregava essa marca. Eu não era a neta ideal, não era branca de olhos claros. Eu não era o que ele considerava digno. Lembro de quando tinha 15 anos e saí com meu pai para comer algo em um bar simples. Uma vizinha chamou minha mãe dizendo que ele estava traindo ela com uma moça jovem. Quando minha mãe chegou, a “moça” era eu. Porque, sendo mais clara que meu pai, eu não poderia ser filha dele. Mesmo com traços idênticos. Mesmo sendo sua própria filha. A ideia de que um homem negro não poderia estar com uma menina clara sem que fosse algo errado fala muito sobre como o racismo estrutura o olhar das pessoas. Meu pai já me contou que, quando eu era criança, andava com minha certidão de nascimento na carteira. Ele tinha medo de que, ao sermos parados por policiais, o acusassem de sequestro. Porque um homem negro com uma criança mais clara no colo parecia “suspeito”. Eu cresci ouvindo essas histórias e, por muito tempo, não me considerei negra. Na minha visão limitada de adolescente, eu achava que não poderia ser, porque era mais clara que meu pai.Mas minha trajetória escolar me mostrou outra coisa. Foi o período mais doloroso da minha vida. Sofri bullying constante, inclusive por causa do meu cabelo cacheado. As meninas “bonitas” tinham cabelo liso. As “feias”, como eu era chamada, tinham cabelo crespo ou cacheado. Eu tive pensamentos suicidas na adolescência. Sim, é pesado dizer isso. Mas é a verdade. As pessoas podem ser cruéis. Eu nasci em 1993. Tenho 32 anos. A mesma idade de Manoel Rocha Reis Neto. Pensar que ele nasceu no mesmo ano que eu me atravessa de um jeito profundo. Eu não conheço as dores específicas que ele carregava, mas sei que ninguém chega a esse extremo sem estar vivendo um sofrimento agonizante. Eu estava cheia de dúvidas sobre iniciar a faculdade de Psicologia. Medo, insegurança, receio de não dar conta. Mas a verdade é que eu preciso ser psicologa, preciso, especialmente para ajudar outros autistas que receberam diagnóstico tardio e precisam reconstruir a própria identidade depois de anos se sentindo “errados”. Eu preciso porque também quero olhar com atenção para jovens e adultos negros que, muitas vezes, nem acesso a laudo conseguem e que sofrem em silêncio, que são invalidados, que não encontram profissionais que os compreendam dentro da sua realidade social e racial. Eu sei que a caminhada é longa. São cinco anos. Mas esses cinco anos vão passar de qualquer forma. E eu quero que passem comigo focada nos estudos, me preparando, me fortalecendo, me tornando uma profissional capaz de acolher quem quase nunca é acolhido. Manoel, eu não te conhecia pessoalmente, mas sei que você era grandioso. Que você encontre descanso. Nós que ficamos aqui continuaremos lutando. Por você também.
Comecei aos sete anos quando eu ganhei um diário da minha tia, escrever o que eu sentia era bem mais fácil do que falar e, entre idas e vindas à biblioteca com ela, descobri que meus melhores amigos poderiam ser os autores. Honestamente, minha memória anda um pouco bagunçada. Desde os 13 anos sou medicada, segundo o meu primeiro psiquiatra eu tenho depressão e ansiedade generalizada, mas eu me recordo que depois do episódio horroroso de não querer ir para a escola e tomar remédios, não tive mais vontade de escrever. Depois eu descobri que a escrita corria no meu DNA. Comecei com RPG, um jogo em que eu interpretava personagens, e vivi longos anos interpretando pessoas que, no fundo, eu queria ser de verdade. Mulheres poderosas, seguras, independentes. Eu tinha tantos nomes: Julieta, Anna, Sofia, Megan... e cada uma delas era eu, em versões diferentes, talvez melhoradas. Se eu tivesse um único arrependimento nessa vida seria não ter escrito um livro, mas nunca é tarde para começar ou rec...
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