Escrevo este texto em meio a uma crise de autismo.Na nossa sociedade, as pessoas parecem ter perdido a paciência umas com as outras. E isso se intensifica ainda mais quando nos deparamos com alguém em meio a uma crise sensorial. Tentarei descrever como é essa sensação. Após um conflito interno, parece que meu cérebro trava. Eu fico presa naquele problema que preciso resolver e, como uma cascata de cartas desmoronando, tudo começa a se intensificar. Um simples barulho, como um copo caindo no chão e fazendo aquele som metálico, se potencializa. O som cresce dentro de mim, causando inquietação e, logo em seguida, um susto acompanhado de um grito profundo.
Os pensamentos aceleram. Tento absorver todas as informações que estão acontecendo ao meu redor ao mesmo tempo. A respiração acelera, o corpo começa a tremer, e a ansiedade, que antes estava adormecida, passa a percorrer cada vaso sanguíneo do corpo.
Logo vem a dor no peito.
Forte. Apertada. Sufocante.
Como se um infarto fosse acontecer a qualquer momento mas é apenas o formigamento que toma conta.
Quando tento me acalmar, eu perco a fala. É um processo interno, como se meu cérebro estivesse ocupado demais para processar outras demandas. A fala se torna algo distante, quase incômodo. Escutar a própria voz parece demais naquele momento.
E é justamente aí… que outras pessoas perdem a paciência.
Ao se deparar com a cena, mais uma vez minha mãe começa a me criticar. Palavras pesadas são lançadas, como “isso é só fogo no rabo”.
Enquanto tento processar tudo o que está acontecendo dentro de mim, esse comentário impaciente desperta um gatilho profundo: o sentimento de inutilidade.
Então as lágrimas vêm.
Quentes. Caindo como uma cachoeira.
Uma onda forte de choro descompassado toma conta de mim. Surgem mais questionamentos nervosos, mais palavras duras. Para os outros, meu choro parece desespero. Para mim, é alívio. É um mecanismo de defesa que meu corpo encontra para sobreviver àquela intensidade.
Mesmo assim, as pessoas ao meu redor gritam para eu parar de chorar.
Enquanto isso, pensamentos negativos invadem minha mente:
“Eu me odeio.”
“Sou inútil.”
“Eu queria ser uma pessoa não divergente.”
“Queria viver tudo de forma mais natural, menos intensa.”
Meu corpo começa a doer.
Mandíbula. Dedos. Mãos.
Como se o estágio final fosse uma dor muscular completa, porque a rigidez tomou conta de cada parte do meu corpo.
E, no meio de tudo isso, um pensamento simples surge:
Se nem as pessoas mais próximas de mim são capazes de me compreender… o que esperar do resto do mundo?
Às vezes parece que o mundo simplesmente não foi feito para nós.
Comecei aos sete anos quando eu ganhei um diário da minha tia, escrever o que eu sentia era bem mais fácil do que falar e, entre idas e vindas à biblioteca com ela, descobri que meus melhores amigos poderiam ser os autores. Honestamente, minha memória anda um pouco bagunçada. Desde os 13 anos sou medicada, segundo o meu primeiro psiquiatra eu tenho depressão e ansiedade generalizada, mas eu me recordo que depois do episódio horroroso de não querer ir para a escola e tomar remédios, não tive mais vontade de escrever. Depois eu descobri que a escrita corria no meu DNA. Comecei com RPG, um jogo em que eu interpretava personagens, e vivi longos anos interpretando pessoas que, no fundo, eu queria ser de verdade. Mulheres poderosas, seguras, independentes. Eu tinha tantos nomes: Julieta, Anna, Sofia, Megan... e cada uma delas era eu, em versões diferentes, talvez melhoradas. Se eu tivesse um único arrependimento nessa vida seria não ter escrito um livro, mas nunca é tarde para começar ou rec...
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