Desde que eu nasci, segundo João Claudio Damacena, vulgo meu pai, eu saí da maternidade da Santa Casa de Pindamonhangaba e vim direto para a casa da minha avó. Eu sempre morei nessa casa antiga que atualmente tem marcas do passado, algumas rachaduras, mas ainda é rica em cada canto da casa de lembranças e amor. Eu não me recordo bem da infância, como disse, acredito que não só por conta do remédio, mas para minha autoproteção, meu cérebro apagou aquilo que mais me machucava. Brigas, discussões e gritos eu nunca gostei. Lembro de me sentir agoniada, mesmo quando os gritos eram com outras pessoas, recordava de estar em um canto qualquer fechando os olhos e rezando mentalmente para que o barulho cessasse, até que parou... e eu tentava processar o que estava acontecendo. Era estranho como a briga ficava na minha mente, era algo como se alguém tivesse colocado uma caixa de som e ampliasse toda a discussão, era intenso, cansativo e, no final, eu só conseguia pedir para que parasse. Foi assim quando, com 13 anos, eu decidi que queria morar com os meus pais. Minha mãe sempre teve uma personalidade diferente do meu pai, naquele momento eu via a minha mãe com outra perspectiva da que vejo agora. Eram gritos, brigas e sempre entre o casal, e eu imaginava que minha mãe naquele momento era a causadora de tudo. É espantoso como, sendo criança e adolescente, a gente está do lado errado da história. Eu gostava do meu pai, gostava muito, acho que porque eu o via de outra maneira. Tinha ocasiões em que ele chamava minha mãe de louca, maluca e problemática, e eu ria concordando... o engano estava ali. Minha mãe nunca foi maluca ou problemática, era apenas o jeito dela de brigar pelo que ela queria de fato. Aos 32 anos, me considero agora estar do lado certo. As opiniões mudam, a verdade aparece, porém a dor e a decepção permanecem. Eu acreditava que meu pai, como pai, era excepcional; nunca gostei dele como homem de fato, eu sabia separar muito bem os papéis. Via o João como o meu pai, o super-herói, e o João como marido, aquele que era mentiroso, manipulador e traidor. Então o castelo de cartas caiu. Como mulher me sinto irrevogavelmente decepcionada comigo mesma, talvez naquela época, se eu sempre tivesse apoiado minha mãe, os papéis seriam outros. Mas, como eu disse, enquanto criança e adolescente, naquela época era o certo, e está tudo bem também. Temos o direito de errar e de amadurecer.

Ainda sigo na decepção, acredito que, como todo ciclo da vida, uma hora isso passa também. O bom, realmente, da vida é que quando temos escolhas, sejam boas ou ruins, nunca é tarde para fazer o certo, e agora sim, estou do lado da mulher que eu deveria estar desde o começo. Mãe, também sempre tive orgulho da senhora, mas hoje, mais ainda.
Suas dores são as minhas, porque a traição veio do mesmo homem, de formas diferentes, mas dolorosas da mesma maneira.

“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.”
— Clarice Lispector


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